Ela ficou deitada, com os olhos abertos, sem vontade de se levantar. Olhou para o lado e percebeu que já era tarde. Levantou-se.
Caminhou a passos curtos até o banheiro e tomou um longo banho. Não tinha nada para fazer, naquele dia, como em tantos outros.
À noite, resolveu descer até o térreo, na esperança de encontrar alguém, pois sempre sentia-se muito só.
Ele bebia uma cerveja no bar da esquina, como parte de um hábito silencioso. Ia sempre ao mesmo local, quando a solidão apertava. Observava as pessoas passando pela rua, sempre apressadas, com o semblante fechado.
Quase imóvel e com o copo na mão, tentava suspender os próprios pensamentos. Tinha um olhar vago: via todo o movimento, mas não se conectava a ele. O tempo parecia pairado no ar.
Quando o dinheiro acabou, voltou para casa. Caminhou devagar, ainda imerso em um torpor contido.
Ao entrar no prédio, percebeu que uma moça esperava o elevador. Ela chamou sua atenção de imediato. Não trocaram palavras.
Entraram juntos.
Apesar do silêncio, havia algo deslocado na situação — uma tensão discreta, quase inexplicável. Os olhares se cruzaram por tempo demais para serem casuais.
Ela o observava com insistência, e ele não desviava o seu rosto. Havia ali uma tentativa muda de reconhecimento. Era como se ambos buscassem, no outro, algum tipo de ruptura da própria rotina.
Nenhuma palavra foi dita. O tempo pareceu desacelerar.
Aos 55 anos, solteiro e sem filhos, o professor universitário vivia entre o trabalho e o silêncio. Consequentemente, a rotina disciplinada não preenchia o que lhe faltava.
Ela, estudante de Direito, vivia em uma realidade controlada e previsível. Dependia da família, circulava entre compromissos e distrações, mas mantinha uma inquietação constante.
Naquela tarde, vestia um vestido preto de seda. Havia cuidado na aparência — talvez mais do que o habitual.
Pararam no mesmo andar.

Ela saiu primeiro e, antes que a porta se fechasse, a moça segurou-a com a mão:
— Olá, professor. Moramos no mesmo andar… e eu ando precisando de aulas mais… particulares.
Sorriu, sem sustentar totalmente o olhar.
Mais tarde, já em casa, o docente corrigia as provas do bimestre. Serviu-se uma dose de uísque e se sentou.
Batidas na porta. Era ela.
Agora, vestia um shorts e uma blusa branca, simples. A informalidade contrastava com o encontro anterior.
A aluna disse que precisava de ajuda com algumas matérias. Ele, então, a deixou entrar.
Ela se sentou no sofá com uma naturalidade ensaiada. Ele permaneceu em pé, por alguns segundos, antes de se aproximar.
O silêncio voltou — mais denso, desta vez.
Ele colocou o copo sobre a mesa e a puxou para perto.
A partir daquela noite, os encontros foram se repetindo.
Quase um mês se passou.
O envolvimento, para ela, deixou de ser circunstancial. Havia expectativa, projeção — algo que ele não sustentava.
No entanto, em uma tarde, ao se aproximar do apartamento, ouviu vozes do lado de dentro.
Reconheceu uma delas. Era de uma colega de sala.
A garota ficou imóvel por alguns segundos. Não chamo ninguém, e apenas se afastou.
No dia seguinte, ao abrir a porta do elevador, deu de cara com o novo casal.
Não houve reação imediata, e seu corpo pareceu atrasado em relação ao entendimento.
Ela recuou e seguiu em direção às escadas. Subiu sem pressa, anestesiada.
Já no décimo andar, parou.
Olhou para o vazio.
E se atirou.
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